Sete questões que precisam ser desafiadas pelas mulheres e transformadas socialmente no trabalho

Por Samira Ramalho

O Dia Internacional da Mulher não existe para ser comemorado ou para impulsionar o comércio. As flores não são necessárias, mas sim a luta pela busca de mais igualdade, segurança e respeito no mercado de trabalho e no ambiente profissional, como um dos aspectos da vida ainda desfavoráveis para as mulheres. Para a professora doutora em Ciências Sociais da Universidade Federal do Piaui, Mary Alves Mendes, a presença de tais desigualdades sociais e laborais entre os sexos é reflexo de uma sociedade patriarcal, ainda fortemente machista e referendada na heterossexualidade, cujas concepções, se sabe, são construções sociais e, portanto, podem e devem ser desconstruídas.

Mesmo com a escolaridade feminina em início de vida profissional sendo superior à masculina, ainda existem desafios consideráveis para as mulheres, como as diferenças salariais, os assédios, abusos, desvalorização feminina diante das posições liderança e o errático exercício do direito de escolha sobre vivenciar maternidade e carreira.

Listamos algumas das metas que precisamos alcançar e o que precisamos combater:


1. Salários iguais entre homens e mulheres ou proporcional ao tempo de estudo e às qualificações.
Na faixa etária de 20 a 24 anos as mulheres brasileiras, em média, estudam 10,2 anos, enquanto os homens estudam em média 9,6 anos, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mas continuam ganhando cerca de 30% a menos que os homens em termos gerais. A diferença é ainda mais agressiva quando se trata de mulheres negras. Elas podem receber até 172% menos que recebe um homem não negro e dificilmente chegam às mesmas posições no trabalho. Veja mais aqui.


2. Distribuição igualitária de cargos de liderança entre homens e mulheres.
O relatório Women in Bussines and Mangement – Gaining Momentum produzido e divulgado em 2015 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) apresentou um Brasil com taxas de 5 a 10% de ocupação feminina em altos cargos empresariais. O relatório aponta que durante as décadas houve evolução da ocupação feminina em cargos de liderança, sobretudo nas posições intermediárias.  Os estereótipos de gênero são considerados entraves na aproximação de mulheres da gestão. Quando elas chegam às posições, os desgastes emocionais provenientes do preconceito formam um novo obstáculo.


3. Contratação, valorização e respeito às trabalhadoras que hoje estão assumindo profissões tradicionalmente masculinas
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Há uma crença que as mulheres não costumam procurar profissões nas áreas de informática, engenharia e outras tecnologias, por exemplo. Contudo, em 2013 elas já ocupavam aproximadamente 30% das vagas de engenharias nas universidades brasileiras. Enquanto como profissionais elas ocupam uma parcela bem menor, variável entre os estados, o que ainda representa uma permanência dura no painel de mudanças. Suellen Alcântara relatou que enquanto estudante de engenharia, em 2015, sofreu discriminação de gênero em uma seleção para estagiários.

“Já fui para uma ‘entrevista’* de estágio numa empresa de Teresina e quando cheguei lá, não tive a oportunidade de mostrar meu currículo, pois a recrutadora informou que a vaga era só para homens. Tinha mais cinco meninas comigo e todas passaram pelo mesmo constrangimento.  Não chegaram a falar nem o motivo da vaga ser exclusiva para homens, só nos dispensaram. Eu não conhecia as outras meninas e não tomei providências, pois achei que no momento não valia a pena, principalmente pelo fato de que era só um estágio. Achei que tomar alguma medida contra a empresa poderia sujar meu nome com as demais empresas e assim ficar mais difícil ainda arrumar um estágio e futuramente um emprego na área”, explicou a estudante. *Grifo da entrevistada

Quem trabalha na área de segurança também enfrenta a mesma dificuldade, como Mary Araujo, formada em vigilância e segurança privada. “É um descaso na entrega do currículo. Você deixa lá, ninguém lhe da informação, apenas risinhos de deboche. Nem mesmo somos alertadas durante os cursos. Na sala de aula são 30 homens e cinco mulheres, sendo que duas desistem”, relatou a mulher que hoje trabalha em uma área diferente da formação.


4. O fim das seleções de emprego discriminatórias.
Seleções que exigem sexo masculino ou feminino sem justificativas plausíveis e/ou legais para a escolha e anúncios discriminatórios são proibidos, mas dentro da razoabilidade, pois existem programas de “discriminação positiva” e ações afirmativas que visam promover o encorajamento de mulheres a concorrerem a determinados cargos e assim promover o equilíbrio entre os gêneros e sexos em determinada área profissional.

Suellen Alcântara acrescenta que a empresa que a discriminou por ser uma estudante de engenharia mulher ofereceu apenas uma explicação: “a única justificativa é de que foi um erro no sistema do órgão intermediário e as vagas não eram para ter sido ofertadas para mulheres”, explica.  Veja mais sobre discriminação na Constituição.


5. Segurança e ambiente de trabalho respeitoso para as trabalhadoras.  Fim do assédio sexual e moral.
Os casos de assédio sexual e abusos físicos e psicológicos já acometeram 52% de trabalhadoras em todo o mundo no ambiente de trabalho, de acordo com informações da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A empresas têm a obrigação de garantir a segurança destas mulheres. São também comuns os argumentos de empregadores resistentes ao contratar mulheres com a afirmativa que não podem garantir a segurança delas em ambientes predominantemente masculinos. Isto é um discurso machista que precisa ser desconstruído. Para denunciar assédios e abusos, as mulheres são encorajadas a denunciar. Veja aqui como lidar com o assédio sexual e como as empresas podem se comprometer .


6. Respeito às profissionais que decidem ser mães. Projeto de lei e pressão social para que a licença paternidade seja concedida com a mesma quantidade de dias da licença maternidade.
A licença paternidade igual garantiria um grande passo na promoção da igualdade entre mulheres e homens no âmbito profissional. Contudo, o Senado aprovou o projeto de lei, em fevereiro deste ano, que aumenta de cinco para 20 dias a licença paternidade. Se for sancionado, o projeto trará benefícios aos pais funcionários de empresas vinculadas ao programa Empresa Cidadã, que são estimuladas a conceder seis meses de licença maternidade. Pode ser considerado um avanço, mas ainda está distante do que é ideal para romper a dicotomia de que mulheres ocupam o espaço caseiro e familiar enquanto o homem domina a rua, o trabalho e o dinheiro.

A auditora fiscal do Ministério do Trabalho, Fátima Ferreira, ressalta que há muita discriminação em relação às mulheres que engravidam justamente por esta desigualdade. “Começam com as perseguições, motivos para que elas se sintam pressionadas a sair. Criam qualquer motivo, muito embora a gravidez tenha por direito uma estabilidade no trabalho. Orientamos neste caso para que a trabalhadora se dirija à Comissão Regional de Igualdades de Oportunidades de Gênero, Raça, Etnia, de Pessoa com Deficiência e Combate à Discriminação do Ministério do Trabalho. As providências da comissão e orientações dependem dos desdobramentos e particularidades dos casos”, destacou a auditora.

Graduada em direito, Tallita Mendes sente que sofreu discriminação em uma seleção por ser casada e ter uma filha. “Tive a sensação de estar indo bem na entrevista, a conversa com o entrevistador fluiu bem e ele até já falava como se eu já tivesse sido escolhida. Mas ele viu que eu era casada e perguntou se eu tinha filhos. Quando eu disse que sim, ele só respondeu: ‘então tudo bem, era só isso mesmo’. Senti que perdi a chance naquele momento e acredito que a minha condição não atrapalharia em nada a execução do trabalho e o meu rendimento. Acho que quando temos filhos devemos levar a vida profissional com ainda mais seriedade, pois queremos oferecer uma vida boa para eles”, conta.


7. Participação de homens no âmbito doméstico e redução da sobrecarga de trabalho doméstica da mulher.
Este aspecto é ainda um entrave no que diz respeito `a efetiva incorporação feminina no trabalho. A professora doutora em Ciências Sociais, Mary Alves, reconhece as mudanças na condição social de mulheres e a participação considerável delas nas esferas públicas, muito disso se deve ao movimento feminista, mas o mesmo não aconteceu aos homens no que diz respeito à sua participação na esfera doméstica.

“Sua participação nesse âmbito ainda é considerada muito pequena. Ainda não se pode atestar a existência de um quadro geral de igualdades entre os sexos, visto que as mulheres no espaço doméstico ainda continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas domésticas, mesmo trabalhando fora, acarretando-lhes sobrecarga de trabalho e tripla jornada de trabalho. Além do que continuam sendo o alvo prioritário das violências domésticas. Ainda são poucas na representação política e em altos cargos de prestígio, comandos, se comparadas aos homens. Na condição de provedoras da família estão, substancialmente, nos extratos sociais mais pobres e mais precarizados em termos de trabalho”.


Ilustração de Jefferson Corvo, propositalmente destacada para mostrar os absurdos do mercado de trabalho e das diferenças que são usadas negativamente para permear nossas relações.